Investigação

A nossa UBI 2030

Fev 1, 2020

Há um consenso generalizado de que estamos no início da quarta revolução industrial, que conduzirá a um período de mudança rápida a nível tecnológico e, consequentemente, a mudanças significativas na sociedade e na economia. A isso não escapará obviamente o ecossistema da investigação nas universidades. 

Investigação é o nosso propósito, tecnologia é o nosso meio

As tecnologias que, tudo indica, serão as forças motrizes desta revolução, e que terão um impacto transformador na investigação nas universidades, incluem a IoT (Internet of Things), a impressão 3D, a nanotecnologia, a biotecnologia, o 5G, as novas formas de armazenamento de energia e, ainda, a computação quântica. Uma das tecnologias da quarta revolução industrial que se espera vir a ter mais impacto transformador é a da inteligência artificial, em particular a aprendizagem automática em profundidade, devido ao seu posicionamento como tecnologia de uso geral em muitos setores da atividade humana, em particular no universo da investigação. A sua utilização generalizada terá um efeito catalizador na melhoria e capacitação de outras tecnologias. Refira-se, a propósito, que as revoluções industriais anteriores tiveram as suas próprias tecnologias de uso geral, tais como, por exemplo, a eletricidade ou o motor de combustão interna na segunda revolução, que foram uma das principais razões pelas quais esse período constituiu uma revolução e não uma evolução. Neste enquadramento, temos ainda os avanços recentes na fusão nuclear que, se vier a transformar-se numa indústria comercialmente viável, permitirá dar um salto civilizacional incomensurável, dir-se-á mesmo galáctico (veja-se a escala de Kardashev), pois passar-se-á a dominar de forma controlada a energia dos sóis e das estrelas, que é praticamente inesgotável.

Plano estratégico para a investigação 

Neste colocar de olhos no presente e no futuro, a UBI precisa de fazer uma auto-reflexão, de perceber de forma clara em que estado de evolução se encontra, e, acima de tudo, ter um plano estratégico para mudar, sob o risco de continuar a ser uma universidade mediana nacional e internacionalmente. Isso exigirá a consolidação de uma cultura de investigação, que esteja alinhada com a política científica da União Europeia, pois é a investigação, a par do ensino e da inovação, que torna uma universidade uma Universidade. Por isso, não é aceitável: 

  • perder sucessivamente vários ciclos de doutoramento de forma passiva, sem qualquer reação e sem qualquer solução;
  • adotar uma posição passiva relativamente a unidades de investigação que viram a sua avaliação descer de muito bom para bom, ficando na iminência de perder a acreditação dos seus doutoramentos pela A3ES.
  • ter somente quatro áreas disciplinares no índice ARWU (ou índice de Shangai), que é aquele que a União Europeia utiliza para definir a excelência na investigação;
  • ter sido reconhecida pela A3ES somente por um ano como universidade, e não ter havido uma reação forte no sentido de recolocar a UBI numa posição menos periclitante. 

 

Existe política científica na UBI?

Perguntar-se-á então qual é a política científica da UBI? Se existe, não se percebe nem se nota. É dever da equipa reitoral a condução da política científica, quer haja ou não um instituto coordenador e de apoio à investigação. É dever da equipa reitoral solicitar aos departamentos, às unidades e institutos de investigação que elaborem, no mínimo, um plano estratégico por área disciplinar para a década que agora se inicia, os quais suportarão o plano estratégico da UBI para 2020-2030. Esses planos estratégicos setoriais deverão especificar pelo menos:

  • os grandes desafios colocados no presente e as respetivas possíveis soluções no futuro;
  • os recursos financeiros, humanos e materiais necessários para enfrentar tais desafios;
  • uma política de gestão e planeamento de carreiras, em que deverá constar o perfil mínimo do que deverá ser um professor auxiliar, um professor associado e um professor catedrático em cada área disciplinar;
  • uma política clara para a carreira de investigação que se move paralelamente à carreira universitária.

 

A isto acresce a necessidade de promover uma cultura científica assente no mérito e na competitividade positiva, erradicando a perniciosa e atual competitividade negativa que mina a confiança, a motivação e o projeto de vida de cada um nas universidades portuguesas.