Será a pandemia uma oportunidade para as instituições do Ensino Superior?

Abel Gomes - Fac. Engenharia

Artigo publicado no jornal Expresso

A pandemia é uma oportunidade para as instituições do ensino superior (IES) mudarem e se adaptarem aos ventos de mudança que sopram da natureza e da tecnologia, ao nível do combate às alterações climáticas e da transformação digital em curso a nível global, acautelando e reforçando a sua importância nas sociedades.

As aulas presenciais estão de volta à Universidade neste início do ano letivo 2020-21. Os novos alunos encontrarão um ambiente académico anómalo resultante da pandemia que nos assola desde março deste ano. Como bem diz Pedro Conceição, que lidera o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), em entrevista recente a uma revista, se a crise de 2007/08 foi essencialmente económica, a atual crise em que vivemos afeta não só o rendimento das pessoas (e a economia), mas também a saúde e a educação em todos os países. Ora, o rendimento das pessoas, o acesso à saúde e o acesso à educação constituem os três parâmetros principais do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), pelo que se espera uma queda – e também um retrocesso – do IDH a nível global.

A pressão sobre as IES tem sido, pois, mais notória do que alguma vez foi nas últimas décadas. O facto de ter havido mais candidatos no acesso ao ensino superior este ano do que nos últimos anos, acabou por aliviar essa pressão, apesar da diminuição de estudantes estrangeiros, em particular no que concerne às propinas e no que trazem de positivo ao equilíbrio orçamental das universidades e à manutenção e crescimento do IDH do nosso país por via do ensino superior.

Mas a pandemia também acabou por ter um efeito positivo na perceção da sociedade relativamente às universidades e às escolas em geral. A Universidade cresceu em prestígio e em importância quando os estudantes foram forçados a ir para casa aquando do início do estado de emergência, em março passado, por causa da pandemia. Os estudantes e as suas famílias perceberam o quão importante a Universidade é para os seus projetos de vida.

Se juntarmos a isto o fator decisivo de que o ensino obrigatório se alargou até ao 12º ano, percebe-se porque houve mais 22% de candidatos ao concurso nacional de acesso ao ensino superior em 2020/21 do que no ano passado. Diga-se, a propósito, que houve cerca de 62 000 candidatos ao ensino superior, o que não acontecia desde 1996.

Repare-se que este aumento no número de candidatos acontece em contraciclo da taxa de natalidade, que está em queda desde há décadas. Isto só se tornou possível porque, pela primeira vez, cerca de 50% dos estudantes que concluíram o 12.º ano optaram por se candidatarem ao ensino superior. Espera-se que no final da década de 2020/30 a percentagem de jovens com 20 anos a cursar o ensino superior atinja os 60%. E não será certamente a pandemia e os seus efeitos que irão travar este aumento de jovens no ensino superior. Portanto, as IES têm de se adaptar ao aumento progressivo do número de estudantes, o que conduzirá à contratação de mais professores e funcionários, à construção e adaptação de infraestruturas, quer ao nível do edificado (também mais adaptado a futuras pandemias), quer ao nível das redes de comunicação e da transformação digital. Será ainda necessário fazer investimentos em novas tecnologias de ensino-aprendizagem, o que requererá novas metodologias pedagógicas e novos cursos (ou reformulação dos atuais) para formar novos perfis profissionais mais adaptados à evolução da sociedade e da economia.

Ou seja, devido aos efeitos da pandemia, mas também ao previsível aumento do número de alunos, as IES vão ter de investir mais. Não sendo expectável que o financiamento público, via OE, aumente na mesma proporção das necessidades, é óbvio que as IES vão ter de aumentar as suas receitas próprias. Como? Em primeiro lugar, aliás como se tem feito, captando mais alunos, portugueses e estrangeiros, em particular mais alunos estrangeiros ao nível do ensino pós-graduado, cujas propinas são mais elevadas. Portugal tem condições ótimas para oferecer aos estudantes estrangeiros, como se pode atestar, por exemplo, pela qualidade crescente do ensino superior e pelo posicionamento do País nos rankings do turismo.

Em segundo lugar, porque falta explorar as receitas que poderão advir do ensino online para os países lusófonos — prevê-se que existirão 600 milhões de falantes da Língua Portuguesa em 2050—, das formações de curta-duração para empresas, e da formação ao longo da vida. Em terceiro lugar, porque falta explorar em maior escala as receitas resultantes das sinergias entre a Universidade e as Empresas, quer ao nível da elaboração de projetos de investigação e inovação, quer ao nível da execução de projetos conjuntos e do registo de patentes, quer ainda ao nível da participação ativa da Universidade na criação de riqueza através da instalação de mais startups no ecossistema de inovação da Universidade e das Empresas.

As universidades do interior, como a UBI, à qual pertenço, têm também vantagens competitivas nessa disputa de captação de estudantes, basta transformarem problemas em oportunidades. Há quem o esteja a fazer, mas há quem ainda não percebeu isso.

Covilhã, 13 de outubro de 2020

Share with your friends