A pandemia poderá ser uma oportunidade para as instituições de ensino superior (IES) voltarem a liderar numa sociedade que anseia pela mudança a vários níveis: na organização política e das agendas políticas; na organização das cidades, das instituições e das suas gentes; na organização e no funcionamento das empresas para se manterem competitivas em contexto de transformação digital a nível global; e na proteção do planeta e da biosfera face às alterações climáticas. Será a Universidade capaz de mudar e fazer mudar, acautelando e reforçando a sua importância nas sociedades? Ou ficará à espera que o mundo aconteça lá fora?
Os desafios colocados pela necessidade de manter as aulas presenciais nas IES gerou naturalmente mais debate numas instituições do que noutras, tendo daí resultado melhores soluções (e melhores planeamentos) para mitigar a pandemia, em particular para receber os novos alunos com confiança e responsabilidade neste início do ano letivo 2020-21. Os novos alunos encontrarão um ambiente académico diferente do habitual, pois só assim se poderá enfrentar a pandemia que nos assola desde março deste ano, num enquadramento de crise global que perpassa sociedades e países.
Se é verdade que a crise de 2007/08 foi essencialmente económica e financeira, a crise que ora vivemos afeta não só o rendimento (e a economia), mas também a saúde e a educação em todos os países. Acontece que o rendimento das pessoas, o acesso à saúde e o acesso à educação constituem os três indicadores principais do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de cada país, pelo que é expectável que se dê um retrocesso do IDH no nosso país e a nível global.
No que respeita à educação no ensino superior, a pandemia trouxe mais pressão às IES, não só ao nível operacional ou de funcionamento das universidades e politécnicos, que terá de ser necessariamente diferente, mas também ao nível do equilíbrio orçamental destas instituições.
Em boa verdade, o aumento significativo de 22% nos candidatos ao concurso nacional de acesso ao ensino superior neste ano letivo de 2020-21, relativamente ao ano passado, teve o condão de aliviar essa pressão, apesar da diminuição de estudantes estrangeiros que têm propinas mais elevadas, contribuindo assim para a preservação, tanto quanto possível, do IDH do nosso país no que respeita à educação no ensino superior.
Diga-se, a propósito, que houve cerca de 62 000 candidatos ao ensino superior, o que não acontecia desde 1996. Claro está que este aumento se deve a um conjunto de fatores, sendo talvez o mais relevante o ensino obrigatório se ter alargado ao 12º ano, criando assim as condições para uma maior base de candidatos ao ensino superior. Pode parecer paradoxal, mas este aumento no número de candidatos ao ensino superior acontece em contraciclo da taxa de natalidade, que está em queda desde há décadas. E isto porquê? Porque, pela primeira vez, cerca de 50% dos estudantes que concluíram o 12.º ano candidataram-se ao ensino superior. Informação veiculada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior afirma que no final da década de 2020/30 a percentagem de jovens com 20 anos a frequentar o ensino superior atingirá os 60%. E, ao que parece por dados recentes, não será certamente a pandemia que irá travar este aumento de jovens no ensino superior.
Portanto, as IES têm de se adaptar ao aumento progressivo do número de estudantes, o que conduzirá à contratação de mais professores e funcionários, à construção e adaptação de infraestruturas, quer ao nível do edificado (também mais adaptado a futuras pandemias), quer ao nível das redes de comunicação e da transformação digital. Será ainda necessário fazer investimentos em novas tecnologias de ensino-aprendizagem, o que requererá novas metodologias pedagógicas e novos cursos (ou reformulação dos atuais) para formar novos perfis profissionais mais adaptados à evolução da sociedade e da economia.
Ou seja, devido aos efeitos da pandemia, mas também ao previsível aumento do número de estudantes, as IES vão ter de investir mais. Não sendo expectável que o financiamento público, via OE, aumente na mesma proporção das necessidades, é óbvio que as IES vão ter de aumentar as suas receitas próprias. Como? Em primeiro lugar, aliás como se tem feito, captando mais estudantes, portugueses e estrangeiros, em particular mais estrangeiros ao nível do ensino pós-graduado, cujas propinas são mais elevadas. Portugal tem condições ótimas para oferecer aos estudantes estrangeiros, como se pode atestar, por exemplo, pela qualidade crescente do ensino superior e pelo posicionamento do País nos rankings do turismo.
Em segundo lugar, porque falta explorar as receitas que poderão advir do ensino online para os países lusófonos (prevê-se que existirão 600 milhões de falantes da Língua Portuguesa em 2050), nas formações de curta-duração para empresas e na formação ao longo da vida. Em terceiro lugar, porque falta explorar em maior escala as receitas resultantes das sinergias entre a Universidade e as Empresas, quer ao nível da elaboração de projetos de investigação e inovação, quer ao nível da execução de projetos conjuntos e do registo de patentes, quer ainda ao nível da participação ativa da Universidade na criação de riqueza através da instalação de mais startups no ecossistema de inovação da Universidade e das Empresas.
Esta visão da Iniciativa “A Nossa UBI 2030” faz parte integrante do conteúdo do respetivo site (www.anossaubi.pt) lançado em fevereiro último, antecipando o conjunto de ideias plasmadas posteriormente no Manifesto de Cientistas e Empresários 2020, o qual corrobora a valia e pertinência das nossas propostas. As universidades do interior, como a UBI, pelas suas especificidades, apresentam vantagens competitivas nessa disputa de captação de estudantes e de investimento em projetos de investigação e inovação, bastando para tal transformar problemas em oportunidades. Há quem o esteja a fazer, mas há quem ainda não tenha percebido isso.
Covilhã, 4 de outubro de 2020
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Todos os retratos por João Pedro Silva.